TEMPO PER ANNUM - APÓS PENTECOSTES

(22 de maio a 26 de novembro de 2016)

Horários de Missa

CAMPO GRANDE/MS
Paróquia São Sebastião


DOMINGO
16:30h - Confissões
17h - Santa Missa

TERÇA A SEXTA-FEIRA
(exceto em feriados cívicos)
11h - Santa Missa

1º SÁBADO DO MÊS
16h - Santa Missa

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Nossa Sr.ª das Graças


Ave Maria, gratia plena;
Dominus tecum:
benedicta tu in mulieribus,

et benedictus fructus
ventris tui Iesus.

Sancta Maria, Mater Dei
o
ra pro nobis peccatoribus,
nunc et in hora
mortis nostrae.

Amen.

Nosso Padroeiro


Sancte Sebastiáne,
ora pro nobis.

Papa Francisco


℣. Orémus pro Pontífice nostro Francísco.
℟. Dóminus consérvet eum, et vivíficet eum, et beátum fáciat eum in terra, et non tradat eum in ánimam inimicórum ejus.
℣. Tu es Petrus.
℟. Et super hanc petram ædificábo Ecclésiam meam.
℣. Oremus.
Deus, ómnium fidélium pastor et rector, fámulum tuum Francíscum, quem pastórem Ecclésiæ tuæ præésse voluísti, propítius réspice: † da ei, quǽsumus, verbo et exémplo, quibus præest, profícere: * ut ad vitam, una cum grege sibi crédito, pervéniat sempitérnam. Per Christum, Dóminum nostrum.
℟. Ámen.

Dom Dimas Barbosa


℣. Orémus pro Antístite nostro Dismas.
℟. Stet et pascat in fortitúdine tua Dómine, sublimitáte nóminis tui.
℣. Salvum fac servum tuum.
℟. Deus meus sperántem in te.
℣. Orémus.
Deus, ómnium fidélium pastor et rector, fámulum tuum Dismam, quem pastórem Ecclésiæ Campigrandénsis præésse voluísti, propítius réspice: † da ei, quǽsumus, verbo et exémplo, quibus præest, profícere: * ut ad vitam, una cum grege sibi crédito, pervéniat sempitérnam. Per Christum, Dóminum nostrum.
℟. Amen.

Pe. Marcelo Tenório


"Ó Jesus, Sumo e Eterno Sacerdote, conservai os vossos sacerdotes sob a proteção do Vosso Coração amabilíssimo, onde nada de mal lhes possa suceder.

Conservai imaculadas as mãos ungidas, que tocam todos os dias vosso Corpo Santíssimo. Conservai puros os seus lábios, tintos pelo Vosso Sangue preciosíssimo. Conservai desapegados dos bens da terra os seus corações, que foram selados com o caráter firme do vosso glorioso sacerdócio.

Fazei-os crescer no amor e fidelidade para convosco e preservai-os do contágio do mundo.

Dai-lhes também, juntamente com o poder que tem de transubstanciar o pão e o vinho em Corpo e Sangue, poder de transformar os corações dos homens.

Abençoai os seus trabalhos com copiosos frutos, e concedei-lhes um dia a coroa da vida eterna. Assim seja!
"

(Santa Teresinha do Menino Jesus)

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14 de mai. de 2012

4º Domingo após a Páscoa: "A verdade é imutável. Deus não muda, Ele é a própria Verdade."


Ego Sum Via Veritas et Vita

Pe. Marcelo Tenório

V. Ave Maria, Gratia plena, dominus tecum, benedicta tu in mulieribus, et benedictus fructus ventris tui, Jesus.
R: Sancta Maria, mater Dei, ora pro nobis peccatoribus, nunc et in hora mortis nostræ. Amen.
V. Ora Pro nobis, Sancta Dei Genitrix
R: Ut digni efficiamur promissionibus Christi.

Mais uma Santa Missa dominical na qual Cristo se dá por nós; é a renovação do mistério da cruz. A santa Missa é sempre a renovação do mistério da cruz, de forma que ir à Santa Missa nada mais é do que estar ao lado do Senhor na Sua paixão, morte e ressurreição. São Pio [n.d.r.: de Pietrelcina] que entrava em êxtase na Santa Missa, chorava muito ao celebrá-la. Alguém lhe perguntou: “Por que o senhor chora tanto?” “Por causa da ingratidão dos homens.” E é verdade. Quantas e quantas Missas são celebradas no altar do calvário, no altar de Deus, ante a indiferença dos homens? É a Missa que crava no crânio de Adão a destruição da morte; a morte “morre” pelo sacrifício de Cristo na cruz. Por isso o véu do templo é rasgado; aquilo que impedia e nos separava da graça, agora é destruído, porque Cristo nos salva definitivamente por este mistério da cruz.

No santo Evangelho, Nosso Senhor promete a vinda do Espírito Santo e anuncia a sua retirada visível deste mundo: “Vou ao Pai; se eu não for, Ele não poderá vir, mas se eu for, enviarei o Espírito Santo, o Paráclito”. O Espírito Santo é enviado pelo Pai e pelo Filho. O Espírito Santo, como sabemos muito bem pela nossa catequese, não é uma pomba, não é uma força, uma nuvem, um vento impetuoso. O Espírito Santo é a terceira Pessoa da Santíssima Trindade, é Deus verdadeiro. É a expiração do amor entre o Pai e o Filho, entre o Filho e o Pai. O Espírito Santo é chamado “o dom”, mas também é chamado “o amor”, o amor com o qual o Pai ama o Filho, o amor do Filho para com o Pai. E, como só pode existir um Filho – porque Cristo é o Filho, então o Espírito Santo não é “filho” do Pai – o Espírito Santo é a expiração deste amor entre a Primeira e a segunda Pessoas da Trindade.

O Espírito Santo é prometido por Jesus: “Muitas coisas tenho ainda a vos dizer, mas não compreendereis agora; mas, quando vier o Paráclito, o Consolador, Ele vos ensinará todo o resto, Ele vos recordará todas as coisas.” Este é o Espírito Santo, que procede do Pai e do Filho, e com o Pai e o Filho é adorado e glorificado. É o Espírito Santo que pairava sobre as águas quando não existia nada. É o Espírito Santo que desceu ao ventre santíssimo da Virgem no momento da concepção do Cristo. É o Espírito Santo que descerá em Pentecostes, que desceu sobre a Igreja nascente, sobre os Apóstolos. É o Espírito Santo que desceu sobre nós no dia de nosso Batismo com profusão e pôs em nossa alma os dons infusos, as virtudes teologais da fé, da esperança e da caridade. E este Espírito Santo que já recebemos continua agindo, falando, orientando, conduzindo e santificando através da Santa Igreja, que possui em plenitude o Espírito Santo.

Então este Cristo que sobe ao Pai, continua presente, governando, ensinando e santificando através da Santa Igreja. E aí é que está a perfeita unidade católica, esta unidade que está para o coração da Santíssima Trindade – Pai, Filho e Espírito Santo – que nos revela, através das Sagradas Escrituras, da Tradição Apostólica e do Magistério, a verdade. 

E só a Igreja possui esta verdade. Não existem várias verdades! Se há duas pessoas que estão discordando sobre um ponto, entre elas uma está com a verdade, pois a verdade não pode ser relativa. “A verdade é aquilo em que eu creio...” De forma nenhuma! Não é o que você crê que torna aquilo verdadeiro ou falso, mas é o que realmente é! Então a verdade é objetiva e não subjetiva; ela não está no sentimento, no coração, no “achismo” de um e de outro, não! Do meu lado esquerdo há um Círio pascal, uma vela grande, é uma vela. Alguém poderia dizer: “não é uma vela, é um lampião”, mas na verdade não é um lampião ou qualquer outro objeto, é uma vela: os acidentes são de vela, a sua essência é cera, há um pavio ao meio, em cima há chama, então é vela! Então, as pessoas que discordam que aqui do meu lado há uma vela não há outra solução para elas do que se converterem à verdade objetiva. “Mas eu senti que poderia ser tal coisa...” Ah, pareceu-te... Mas isso não justifica, não muda a verdade objetiva!

A verdade é imutável. Por isso Deus não muda, porque Ele é a própria Verdade. “O que a Igreja acreditava ontem, hoje não pode mais crer, porque os tempos mudaram, estamos em tempos modernos...” De forma alguma! Deus não muda. Não é Deus que tem que Se converter ou Se modificar por causa dos tempos ou da humanidade, mas é a humanidade e o tempo que têm de se converter nesta verdade objetiva, inalterável, inequívoca de Deus que está presente só – e somente, apenas – na Igreja.

Por isso o ecumenismo, como é pregado atualmente, é falso em si mesmo, porque não se pode colocar o erro ao lado da verdade. Só existe uma verdade: Nosso Senhor Jesus Cristo. Só existe um caminho: Nosso Senhor Jesus Cristo. Só existe uma vida: Nosso Senhor Jesus Cristo. E os budistas? Que se convertam a Nosso Senhor Jesus Cristo! E os muçulmanos? Que se convertam a Nosso Senhor Jesus Cristo! E como se converterão? Primeiro, pelo testemunho de vida, de fé, dos bons católicos. Segundo, pelo nosso trabalho missionário; a Igreja é essencialmente missionária. Deus não disse: “Ide e dialogai”. Na pessoa do Filho, Deus nos manda ensinar, ensinar a verdade, a verdade sobre Deus, sobre o homem, a verdade sobre o mundo. De forma que os princípios ecumênicos e o ecumenismo exacerbado como se percebe lá fora, pondo em pé de igualdade Deus e Maomé – até poderíamos dizer, pondo em pé de igualdade Deus e o demônio – “verdades” falsas, não se sustentam de forma alguma. Porque Cristo é o Senhor, e é a Ele que devemos recorrer, e é a esse Senhor – e Ele mesmo nos fala: “Quando eu for elevado, atrairei todos a Mim” – que a humanidade inteira deve acorrer. “Mas isso é para os cristãos...” “Isso é somente para os católicos...” De forma alguma! É para a humanidade inteira. Não existe outra verdade senão a verdade católica. Cristo, caminho, verdade e vida, brilha, resplandece, na face da Sua Igreja.

O Espírito Santo, que é derramado em Pentecostes, inaugura de forma solene a Igreja. E o que é a Igreja? A Igreja é o corpo místico de Cristo, da qual Ele é a cabeça e nós somos os Seus membros. Nós recebemos de Cristo toda a seiva, como o ramo recebe da sua videira. E esta verdade de Cristo deve nos atingir de tal forma que possamos em todos os momentos, até nos momentos difíceis, permanecermos firmes na fé, agarrados à Tradição dos Apóstolos, não ao “tradicionalismo” – porque até os pagãos são tradicionalistas – mas à Tradição Apostólica, às Sagradas Escrituras (como interpretadas pela Igreja) e ao Magistério perene da Santa Igreja. E, assim, estaremos seguros, estaremos imersos nesta verdade de Cristo que brilha na face da Igreja.

“Ah, mas são muitos que já não acreditam nisto...” Mas a verdade não é diagnosticada pela quantidade de pessoas. A verdade não depende de números! Não estamos numa “democracia cristã”! O Cristianismo não é democrático! A Igreja não é democrática! Deus não é democrático! A família não deveria ser democrática. Este é o princípio da autoridade. Ninguém aqui pediu para nascer, Deus não fez um plebiscito para saber se você queria isso ou aquilo nas leis imutáveis da natureza ou das leis divinas; simplesmente estamos, e temos que obedecer. “Ah, eu sou livre para isso, para aquilo...” Mentira! Mentira... Se você é livre para tanta coisa, seja livre para não respirar! Faça “uma revolução contra o ar que você respira” para ver o que sobra de você; não sobrará muita coisa, porque morrerá e perecerá! De forma que a verdadeira liberdade do homem consiste em aderir justamente a Cristo Caminho, Verdade e Vida, e crescer neste mesmo Caminho, nesta mesma Verdade e nesta mesma Vida, que é Cristo nosso Senhor. E, quanto mais estamos em Deus, em Cristo, no coração da Trindade, mais o Paráclito vai “derramando em nós um novo envio, uma nova benção” como nos ensina o grande santo Agostinho.

Que estes dias que antecedem o Domingo de Pentecostes sejam para nós uma preparação, para que, festejando solenemente a vinda do Paráclito, sejamos cada vez mais fiéis – não às novidades, não às coisas novas, não ao espírito adúltero do modernismo “aliado” à fé cristã; não, não a isto! Mas possamos permanecer firmes no Evangelho de sempre, na Doutrina de sempre; possamos permanecer firmes ao lado do nosso Papa, quando ensina estas verdades imutáveis, porque nele está Cristo que fala, que governa, que santifica e que nos orienta.

Homilia proferida em 6 de Maio de 2012.

3º Domingo após a Páscoa: "A obediência é a alma de todo apostolado."



Pe. Marcelo Tenório

V. Ave Maria, Gratia plena, dominus tecum, benedicta tu in mulieribus, et benedictus frutus ventris tui Jesus.
R: Sancta Maria, mater Dei, ora pro nobis peccatoribus, nunc et in hora mortis nostræ. Amen.

O que nós queremos? Alegria, ou contentamento? São coisas diversas: alegria em Deus – tanto que, há dois Domingos a Igreja celebra essa alegria no Senhor. Alegria é aquilo que vem do Senhor, e que nos é dado “como prêmio” dos nossos esforços, por vivermos em Deus; é um esforço, uma ascese. Buscar viver em Deus é romper com tudo aquilo que nos afasta dEle. Isso nos custa, porque vivemos na carne, e isso nos faz sofrer.

Certa vez, Santa Terezinha cuidando de uma irmã idosa em seu convento no frio de Lisieux; sozinha naquela enfermaria escutou ao longe música de festa. E, por um segundo, como que assaltada por uma saudade das coisas do mundo, das festas, das danças, do conforto, já que se encontrava num convento pobre e frio, como são naturalmente frios os interiores das igrejas. Mas, logo em seguida, lembrou-se que tinha escolhido a melhor parte: sua carne sofria, desejaria estar do outro lado dos muros; mas de repente lhe veio a sanidade espiritual – “Não, aqui mesmo é o meu lugar.” Então há sofrimento, mas a alegria é profunda; esta alegria em Deus, que já que vivemos neste mundo, ninguém pode tirar. Aqueles que buscam a Deus de acordo com essa palavra, embora em meio a sofrimentos e incompreensões – os rótulos que o mundo pagão nos dá – possuem uma profunda alegria.

É o que dizia São Francisco: “A profunda alegria está justamente em sofrer, em não compactuar com o espírito deste mundo.” Por isso, Nosso Senhor nos diz: “Ainda um pouco de tempo, e não mais me vereis.” Nosso Senhor está preparando os apóstolos para a sua Ascensão. Hoje você chora, e o mundo se alegra; amanhã o mundo chorará e vocês estarão felizes. Hoje os cristãos choram: renunciam a isto, renunciam àquilo, deixam de lado tudo aquilo que pode nos tirar de Deus, embora seja bom para a carne. É uma constante luta, como nos fala o belíssimo Hino do Apostolado da Oração, mas depois a nossa alegria será completa.

Enquanto sofremos, o mundo se alegra. Mas chegará o dia em que esse mundo chorará. Entretanto, a chave para que estejamos sempre no Senhor, e para que a nossa alegria seja realmente completa, e que não seja jamais tirada (como Nosso Senhor coloca no Evangelho) está na Epístola: a obediência. Servir ao Senhor de verdade. Não ter vida dupla. Não “mentir ao Senhor pela tonsura”, como repreende São Bento aos seus monges. (Os monges que mentem a Deus pela tonsura são os que tem jeito de monge, cara de monge, tonsura de monge, mas não são monges.” Cristão que tem jeito de cristão, cara de cristão, tem a “unção” do Cristo... e não vivem como cristãos! Vivem sob um véu que encobre as coisas más que já deveriam ter sido eliminadas.

E o centro é a obediência: obediência à verdade de Deus anunciada pela Igreja. Obediência aos nossos superiores diretos, ao nosso confessor, ao nosso diretor espiritual. O grande pecado do demônio é o orgulho que gera a desobediência. Pela desobediência presenciamos, através da história, os protestantes. O que aconteceu com eles? Fragmentaram-se. Só em Campo Grande hoje é impossível contar o número de seitas protestantes... É a desobediência!

Assim acontece com aquela alma que é desobediente e que não quer seguir os ensinamentos diretos de Cristo através de seus superiores, que não buscam obedecer a Nosso Senhor vivendo o seu apostolado.

Quem já viu católicos que vivem feito satélites: hora vêm aqui na Missa, hora vai aqui e acolá, compromisso nenhum tem com Paróquia, nem tampouco com apostolado nenhum? Que tipo de católico é esse? Para que serve? Não serve para nada. Onde é que está o seu apostolado? Em que está engajado? Está trabalhando em quê? Só vem receber as dádivas de Deus. E onde está a sua parte no sacrifício, na cruz, no apostolado, no trabalho apostólico, onde é que se encontra? Isso é extremamente importante; é a voz de Cristo através da Igreja que nos convida a trabalharmos com a Igreja e pela Igreja na instauração do reino de Deus.

A obediência é a alma de todo apostolado. Por que não obedecemos à voz de Deus que nos convida? E por que não obedecemos à voz de nosso confessor que nos manda fazer tal coisa, ou parar de fazer tal coisa? E por que não obedecemos à voz de nosso diretor espiritual? Ou melhor, temos diretor espiritual? Ou somos cegos guiando-nos, ou seguindo-nos a nós mesmos?

O santo Evangelho de hoje é muito claro para nós. Para que a vossa alegria seja completa, para que possamos, enquanto o mundo pagão irá chorar, estar felizes, porque passou o choro e a ascese, porque passou todo o tempo de trabalho interior e exterior, e agora possamos gozar das alegrias celestes. Esta é, para nós, a vontade de Deus. Custa? Custa! Nosso Senhor não prometeu a ninguém vida fácil. Muito pelo contrário: prometeu-nos o cêntuplo com perseguições!

Que a Epístola e também o santo Evangelho deste Terceiro Domingo Após a Páscoa iluminem toda a nossa semana, e que com estas sagradas letras possamos refletir sobre a nossa vida, sobre a alegria ou o contentamento, sobre o que estamos realmente escolhendo para nós, em que estamos construindo a nossa existência.

Homilia proferida em 29 de Abril e 2012.
7 de mai. de 2012

2º Domingo após a Páscoa: "Por fim, o meu Imaculado Coração triunfará!"



Sonho de Dom Bosco
Pe. Marcelo Tenório

V. Ave Maria, Gratia plena, dominus tecum, benedicta tu in mulieribus, et benedictus frutus ventris tui Jesus.
R: Sancta Maria, mater Dei, ora pro nobis peccatoribus, nunc et in hora mortis nostrae. Amen.
V. Ora pro nobis, sancta Dei Genitrix
R: ut digni efficiamur promissionibus Christi.

No santo Evangelho, nosso Senhor se coloca como bom pastor, Aquele que dá a vida por suas ovelhas. Citando outro Evangelho, que trata de uma cena semelhante, Ele deixa bem claro: “Aqueles que não estão comigo... os que não entram pela porta... são ladrões e salteadores”. “Todos que vieram antes de mim foram ladrões e salteadores.” “Eu sou o bom pastor, eu dou a minha vida pelas ovelhas.”

O mercenário não quer saber das ovelhas, e sim tirar proveito delas. Não se incomoda com os lobos e, se os lobos estão próximos, ele foge e deixa as ovelhas ao Deus-dará. Pois bem: Cristo é o bom Pastor. E há um só rebanho: “É verdade que há ovelhas que não estão neste aprisco; é necessário que eu vá buscá-las para que haja um só rebanho um só pastor.”

O pastoreio de nosso Senhor está para a verdade, a verdade salvífica que tem o seu núcleo no coração da Trindade. E essa verdade se impõe desde o início, desde o Gênesis, quando começam as sagradas letras: “Bereshit bará Elohim...” “No princípio, Deus criou...”. Desde este momento, a Trindade vai se revelando, embora chegue à plena revelação em Nosso Senhor Jesus Cristo, já no Novo Testamento. Pois bem: este aprisco do Senhor é o aprisco da verdade, e só pode fazer parte deste aprisco aqueles que são da verdade, ou aqueles que se convertem à verdade. Não podem haver outros apriscos e outras verdades. Só uma é a verdade, e um só é o aprisco, que é a Santa Igreja Católica, fora da qual ninguém pode se salvar. Este é um dogma da nossa fé, tão esquecido em tempos modernos de pluralismos religiosos, de seitas que antes eram consideradas como seitas e hoje, “por crescimento econômico”, já são consideradas “igrejas”.  

O belo documento Dominus Iesus, escrito pelo então Cardeal Ratzinger, vai colocar precisamente o que é realmente a Igreja: “A Igreja é a instituição divina já tratada disso por Pio XII na belíssima Encíclica Mystici Corporis Christi. A Igreja, que é divina, que vem de Deus, vem do coração da Trindade, que não terá fim, mas que será consumada na glória. É este o mistério inefável, indelével da Igreja que deve resplandecer no coração de uma alma católica.”

Pois bem. Não é de hoje que os falsos pastores tentam infiltrar-se na Santa Igreja. Querem destruir a Santa Igreja. Querem semear o joio, a discórdia e as divisões. Isto foi tentado desde o Império Romano, desde sempre, chegando ao auge no reinado do Papa Pio X, no inicio do século XX. O Papa Pio X coloca bem às claras os inimigos da Igreja, e diz ele que antes os nossos inimigos estavam fora, agora não, os inimigo da Igreja estão dentro, para confundir; para, inventando uma nova teologia, inventando uma nova moral, querer destruir a verdade autêntica que resplandece na face da Igreja, que é a doutrina de sempre, a moral de sempre de Nosso Senhor Jesus Cristo e que a Igreja desde a era apostólica nos transmitiu, de forma inequívoca, até os dias de hoje. Era o grande Papa Pio X que olhava com o seu olhar de bom pastor, e já denunciava os maus pastores, denunciava aquelas correntes teológicas não muito católicas, ou que nada tinham de católicas, que queriam infiltrar-se para minar a Igreja em suas bases.

E qual não foi a nossa surpresa quando o Papa Bento XVI, indo a Fátima, no avião mesmo fala a mesma coisa, de forma análoga, aquilo que o Papa Pio X dizia já na condenação do modernismo: “Os inimigos não estão fora, estão dentro.”

O sonho de Dom Bosco mostra claramente os inimigos da Igreja jogando contra a barca de Pedro livros, e não atirando com canhões, com armas poderosas, nucleares, não; mas livros. Os livros são ideias, são falsas filosofias, são falsas teologias. E como é triste perceber que, até no ensino da Filosofia ou da Teologia em muitos lugares, este ensino foi substituído. São Tomás de Aquino é deixado de lado, para se fazer com que os alunos se debrucem em filosofias de filósofos nada católicos, em teologias de teólogos que, se na época de Pio XII vivessem, estariam com certeza excomungados.

Pois bem. A Igreja trava uma crise como nunca na sua história. O próprio Papa Bento XVI, como também seu predecessor João Paulo II já nos seus últimos momentos, reconheciam isso: “Esta crise na Igreja, no seu cerne, é uma crise de fé. E esta crise de fé, que muitas vezes parece abalar as suas estruturas, não vem de hoje, mas de tempos. Entrou pela porta da frente da Igreja com o romantismo protestante, através de uma teologia laxa, através de músicas que foram substituindo os belos hinos católicos que convertiam a nossa alma, ou colocavam em nossa alma o tom do combate do martírio. Quem se esquece, por exemplo, do “Levantai-vos, soldados de Cristo, sus correi, sus voai à vitoria”? Hinos belíssimos, e que nos diziam concretamente, e nos colocavam na missão de soldados, de guerreiros, cuja bandeira era a bandeira da Santa Cruz, a bandeira da Santa Igreja.

Entretanto, nestes dias maus, temos que estar, mais do que nunca, unidos ao Papa Bento XVI, gloriosamente reinante. Ele, agora há pouco, completou sete anos de pontificado; um pontificado que revolucionou no bom sentido a História da Igreja em quarenta anos. Bento XVI, que tem a sua preocupação pela doutrina, pela sagrada Liturgia, sobretudo o seu zelo no sacrifício da Santa Missa. De forma que, unidos ao Santo Padre Bento XVI, possamos, como dizia um grande Bispo francês: “Reconstruir enquanto muitos destroem, recolocar Nosso Senhor Jesus Cristo no seu devido lugar: que Ele reine na sociedade, que Ele reine nos poderes públicos, e que Ele continue reinando na sua Igreja, sobretudo na pessoa augusta do vigário de Cristo.

Estando com o Papa estamos seguros. Permanecendo na barca de Pedro, nada, nenhum mau, nenhum vento inescrupuloso de falsas doutrinas, ou nenhuma voz de falsos pastores, nada disso conseguirá retirar de nós o que temos de mais sagrado, aquilo que Dom Bosco ensinava aos seus jovens, os três amores brancos: a branca Hóstia, a branca Virgem e o branco ancião do Vaticano. Eis aí o remédio contra o modernismo, eis aí o remédio contra as heresias práticas que, infelizmente, entraram pela porta da frente.

Mas Nossa Senhora de Fátima nos assegura a vitória: “Por fim, o meu Imaculado Coração triunfará!”
2 de mai. de 2012

1º Domingo após a Páscoa: Dominica in Albis



Pe. Marcelo Tenório

V. Ave Maria, Gratia plena, dominus tecum, benedicta tu in mulieribus, et benedictus frutus ventris tui Jesus.
R. Sancta Maria, Mater Dei, ora pro nobis peccatoribus, nunc et in hora mortis nostræ. Amen.

A Santa Igreja celebra hoje o Dominica in Albis, o Domingo de branco. Domingo in Albis, Domingo de branco justamente pelo costume, na antiguidade, de aqueles que receberam o Batismo na Vigília Pascal retornarem no domingo seguinte revestidos com a mesma veste branca que haviam recebido no dia do seu Batismo. Voltar com esta veste branca, tendo durante a semana todo o cuidado em não manchá-la, indica para nós o Batismo que recebemos – esta roupa nova que recebemos, esta alvura brilhante que recebemos no dia de nosso Batismo, já que fomos lavados no sangue do Cordeiro – e a nossa responsabilidade de trazermos de volta estas vestes brancas do dia do Batismo e que devem continuar brancas, límpidas e puras, tal como nossa alma até o momento em que devemos nos apresentar diante de nosso Senhor.

A roupa branca, límpida e pura que recebemos no Batismo em nossa alma não é para ser manchada, não é para ser violada nem tampouco estragada; daí a nossa responsabilidade de manter bem o nosso Batismo e não nos esquecermos dele, e não nos apresentarmos diante do Supremo Juiz com as roupas velhas, esfarrapadas, podres, enegrecidas ou cheias de lama. 

E, se por acaso, no decorrer de nossa existência, tivermos, de uma forma ou de outra, manchado estas vestes brancas, que recorramos urgentemente ao augusto Sacramento da Confissão, único capaz de refazer em nós as vestes de nosso Batismo.

†††

A grande mensagem da Páscoa é justamente a mensagem da paz: “A Paz esteja contigo”. E Nosso Senhor, após dizer estas palavras que são um desejo, uma condicional – a paz esteja – logo em seguida mostra as mãos e o lado, os cravos, as chagas.

“A paz do Senhor” não é um sentimento; a paz do Senhor não é um contentamento. Estar em paz não é estar bem. Muitos estão bem e não estão em paz: pensam estar em paz porque estão bem; confundem a paz com o contentamento e com a felicidade natural. Alguém diz: “Estou em paz: consegui pagar aquela dívida que há anos vinha se arrastando”... Mas isto não é paz! Ou: “Estou em paz: criei os meus filhos e eles agora estão bem, cada um já está solidificado no mundo”... Isto não é paz! Ou: “Estou em paz porque consegui reaver tal coisa, ou fazer tal coisa.” Isto é contentamento, felicidade natural. A paz não é um sentimento, e a paz não nos é dada por coisas exteriores que possamos fazer, alcançar ou sermos premiados.

Na Vigília de Natal, a sagrada Liturgia vai nos dizer: “Ele é a nossa paz.” A paz é Nosso Senhor, a paz é Cristo ressuscitado em nós. Ora, é uma condicional – a paz esteja – se Cristo está em nós, estamos na paz. Se Cristo está em nós, a paz está em nós e estamos na graça. E, se estamos na graça, não com a ausência do sofrimento, porque, para permanecer na graça e para estar na graça, requer-se de nós justamente sofrimento no sentido de dobrarmos os nossos instintos e convertermos os nossos corações. Eis aí a paz mostrada com as chagas do Senhor.

O Domingo in Albis relembra a nossa grande responsabilidade. O que fizemos do nosso Batismo? O Domingo in Albis nos mostra que um dia estaremos diante do Supremo Juiz, de juízo reto, que nos julgará diante daquilo que nos deu. E a primeira coisa que Ele olhará em nós é justamente a nossa veste: como ela estará no dia do julgamento? Observemos, pois, o nosso Batismo – o que fizemos com as nossas vestes batismais, como estão estas vestes – e não nos esqueçamos de que, com estas vestes, nos apresentaremos um dia diante do Supremo Tribunal de Deus.

Homilia proferida em 15 de abril de 2012, primeiro Domingo após a Páscoa.  

Domingo de Páscoa: “Ele não está mais aqui. Ele ressuscitou!”




Pe. Marcelo Tenório


A alegria do Domingo da Páscoa, após a Quaresma contemplando o Crucificado; a Quaresma, que nos foi proposta pela Santa Igreja para que possamos mudar a nossa vida; e, ontem, toda a Igreja diante do túmulo do Senhor, aguardando a Sua ressurreição. E, assim, a Igreja hoje pode cantar “Onde está, ó morte, a tua vitória? Onde está o teu aguilhão?”

No santo Evangelho que acabamos de escutar, as santas mulheres com Maria Madalena vão até o sepulcro. “Quem nos retirará a pedra?” São movidas pelo amor incondicional ao Mestre, a nosso Senhor: já que não conseguiram fazê-lo devido ao Shabbat, no primeiro dia da semana se dirigem ao sepulcro e levam aromas. E, quando chegam bem próximo do local, vem a indagação: “Quem nos tirará a pedra?” Mas a pedra estava removida; era uma pedra grande. Ficam assustadas, interrogativas. E, ao olharem para dentro do sepulcro, está um belíssimo jovem do lado direito. A palavra do jovem para aquelas mulheres: “Não vos assusteis.” Ou seja: “Não temais.” As palavras de Nosso Senhor durante as aparições que iremos ver com mais precisão na Oitava da Páscoa sempre é esta, além de “A paz esteja contigo”: “Não tenhais medo, não temais, não vos assusteis.”

A morte passou; “a morte, morreu”. Cristo matou a morte! O vencedor, o poderoso das batalhas, aniquilou a morte! Desce aos infernos para abrir as portas do paraíso, para destruir o limbo dos patriarcas e, assim todos podermos entrar na glória de Deus, deslumbrarmos Sua face sagrada, deslumbrarmos o Seu rosto, gozar das alegrias de seus mistérios e do seu convívio. De forma que a Igreja, na escuridão, na penumbra do pecado original, vê aos poucos a luz de Cristo adentrando nas trevas, dissipando tudo o que era obscuro, eis que tudo fica claro: “A noite será como o dia”, canta o Precônio da Páscoa. E a Igreja está tão exultante, mas tão exultante nesta salvação, na ressurreição do Cristo, que canta: “Ó feliz culpa de Adão, que nos mereceu um grande Salvador”!

“Vocês procuram o crucificado?” Perguntou o jovem. Era um anjo; mas por que jovem? São João viu um ancião, não um jovem. Nas suas visões em Apocalipse, São João verá sempre um ancião; aqui é um jovem. É um anjo, jovem, resplandecente do lado direito. “O Crucificado, vocês procuram? “Ele não está mais aqui. Ele ressuscitou!”

Na santa Missa de sempre [n.d.r.: Missa Tridentina], encontramos entre muitos grandes significados, o do lado direito e do lado esquerdo do altar. O lado da Epístola é justamente o do oriente [n.d.r.: a direção da Terra Santa], de onde vem para nós esta luz da verdade. E o Evangelho é proclamado aos incrédulos, aos pagãos, àqueles que precisam de conversão; por isto, a estante do Evangelho, do lado esquerdo do sacerdote, está sempre inclinada, não reta, como do lado direito do sacerdote. Por quê? Porque esta inclinação quer mostrar para nós que a palavra de Deus “se derrama”, o Ressuscitado deve ser conhecido pela sua palavra e a sua palavra aceita gera conversão e mudança de vida. O anjo está do lado direito do altar, não do lado esquerdo, pois do lado direito é de onde vem a salvação.

“O que vocês procuram aqui? O crucificado? Ele já não está mais aqui, Ele ressuscitou.” Cristo não está nos mortos! Cristo não está entre aqueles que desceram aos infernos. De forma alguma! Ele ressuscitou! E por isso nós somos chamados a ressuscitar. São Paulo nos diz: “Se ressuscitastes com Cristo, vós estais mortos.” Então, nós morremos [n.d.r.: para o mundo] no dia de nosso Batismo; mas, “Se ressuscitastes com Cristo, buscai as coisas do alto”, não as coisas baixas. Quem está no alto? Deus. Quem está no baixo? O demônio. Então, buscai as coisas do alto, onde Deus está! Porque a vossa vida está escondida com Cristo em Deus.

E, na Epístola da santa Missa de hoje, vimos isso muito claramente: “Irmãos, purificai-vos do velho fermento.” É Páscoa! Não podemos colocar remendo novo em roupa velha, de forma alguma. Se ressuscitamos com Cristo pelo Batismo, é Páscoa em nós e já não podemos buscar o velho fermento. Muito pelo contrário! Busquemos o fermento novo, um fermento puro, a fim de que, conformando-nos a Ele, que é a vida, possamos em cada instante, em cada momento da nossa existência, viver a Páscoa em nossa alma, em nossa vida.

É sempre Páscoa na vida dos santos; embora haja tristezas, dissabores, sofrimentos, incompreensões e abandonos, é sempre Páscoa na vida dos santos. Ontem, a Igreja invocava a todos os santos, para que fizessem conosco a Vigília Pascal. Todos os santos viveram nas suas vidas a Páscoa do Senhor; desejaram ardentemente esta Páscoa e deram-se totalmente a fim de que, a cada instante, o Ressuscitado tomasse conta de suas vidas, de suas entranhas, de suas células, de todo o seu ser. A tal ponto que Santa Teresa d’Ávila pôde exclamar: “Morro porque não morro; vivo, mas já sem viver em mim”.

O desafio de cada um de nós, enquanto católicos, enquanto cristãos, é, justamente, seguir esta palavra do santo Evangelho, de não ficarmos entre os mortos, porque Ele não está entre os mortos – “Por que procurais aqui? Ele não está, Ele ressuscitou.”; e viver o que diz o Apóstolo – buscar as coisas do alto, ser o fermento novo, viver realmente a vida de ressuscitado. Porque viver a vida de ressuscitado é viver a morte batismal, a morte para o mundo, a morte para a concupiscência, a morte para tudo aquilo que nos afasta de Deus.

“Vós estais mortos, e a vossa vida está escondida com Cristo em Deus.”

Homilia proferida em 8 de abril de 2012, no Domingo de Páscoa.
30 de abr. de 2012

Missa da Noite de Páscoa: “Por que buscai entre os mortos Aquele que vive?"



Pe. Marcelo Tenório

Hoje a Igreja celebra a Ressurreição do Senhor. No Evangelho que acabamos de escutar, Maria Madalena com outras mulheres vai ao túmulo de Cristo. A pedra está removida; um anjo resplandecente, dirigindo-se às mulheres, lhes diz: “Não temais; sei que buscai a Jesus, que foi crucificado; Ele não está mais aqui”. A grande mensagem da Páscoa é justamente esta do anjo: “Por que buscai entre os mortos Aquele que está vivo? Jesus de Nazaré, o crucificado, não está mais aqui.” “Ele não está mais aqui, Ele ressuscitou.”

E São Paulo vai nos falar que a nossa vida está escondida com Cristo em Deus. E, se a nossa vida está escondida com Cristo em Deus, devemos buscar as coisas do alto – onde Deus está – e não as coisas baixas.

Maria Madalena com as santas mulheres, de forma extremamente caridosa, vai atrás do corpo de Jesus, para justamente ungi-lo, já que não deu tempo por ser sábado, e o anjo lhes replica: “Por que buscai entre os mortos a Jesus de Nazaré, aquele que foi crucificado? Ele não está mais aqui.” Ele não está mais aqui!

“Buscai as coisas do alto, não as coisas de baixo, porque a vossa vida está escondida com Cristo em Deus.” A nova vida, a vida verdadeira, está escondida com Cristo em Deus. Esta é a grande mensagem da Páscoa para nós. Não podemos continuar mergulhados em nossos pecados, em nossas resoluções mesquinhas. As mulheres são convidadas a não buscar entre os mortos; as mulheres são convidadas a olhar para o alto. A pedra é removida; aquilo que pesava, que prendia, agora é retirado. O véu que separava, agora já não pode mais separar. 

A nossa vida está escondida com Cristo em Deus: por que procurais entre os mortos aquele que vive? Ele está aqui! Ressuscitou, como disse [alusão a um verso da Antífona Pascal Regina Cæli, n.d.r.]

Homilia proferida em 7 de abril de 2012, noite de Páscoa. 
27 de abr. de 2012

Sexta-Feira Santa: "Recebei-nos também, ó Mãe, em vossos braços como O tendes recebido; trôpegos são os nossos passos Mãe, como nós temos vivido."


Pe. Marcelo Tenório

Hoje, a Igreja celebra a Paixão e Morte de Nosso Senhor. O mistério da Paixão é o mistério do amor de Deus para conosco. O salmo interroga: “Quem é o homem, Senhor, para que dele Vos preocupeis?”. Não somos nada, em nada aumentamos a glória de Deus. E Ele nos criou para Ele. E, ao nos criar para Ele, nos predestinou a viver a Sua vida, a participar da Sua divindade. E assim as Sagradas Escrituras nos dizem “Vós sois deuses” no sentido de participação na divindade do Deus único, do Deus excelso, do Deus verdadeiro que se torna homem como nós e assume a nossa humanidade, a fim de que a salvação, o resgate a preço de sangue aconteça. E a vítima verdadeira é Ele, que se entrega e se dá. Nosso Senhor não é um mártir igual aos outros mártires por que Ele se dá, Ele se entrega.

No Evangelho solene de São João, quando os guardas chegam ao horto das Oliveiras, Jesus os interroga: “A quem procurais?” “A Jesus de Nazaré”, eles respondem; e Jesus lhes diz: “Sou Eu”, ou “Eu Sou”, e de repente eles caem por terra. É o mesmo nome que Deus responde a Moisés, na sarça ardente, que havia perguntado a Ele “Quem és Tu? O que direi ao faraó, qual o teu nome?” e Deus responde a Moisés: “Eu Sou”, “Javé”, “Yahweh”. Quando os judeus, zelosos em suas tradições, zelosos em sua religião, que acusavam Nosso Senhor de blasfemo por se dizer Filho de Deus, se aproximam para prendê-lo com paus e armas e, à frente estava Judas, o traidor, e escutam da boca do Salvador: “Eu Sou”, o mesmo nome sagrado de Deus. Eles caem por terra, a força deste nome é tamanha que caem por terra, como que jogados por terra. Isso três vezes, em sinal de divindade, de perfeição, de autoridade. Novamente, Jesus pergunta: “A quem procurais?” “A Jesus, o Nazareno.” “Já vos disse: ‘Eu Sou’”; eles caem novamente, como se a terra tremesse, e eles são jogados ao chão. E, pela terceira vez, a mesma coisa. Isto nos indica que Ele é o Deus verdadeiro. E não são os carrascos, não são os fariseus, não são os guardas do templo que prendem Jesus ou que põem suas mãos nEle: Ele se entrega, porque se Ele não quisesse, bastava o sopro de Sua boca, como diz o profeta Isaías: “A palavra de sua boca ferirá o avarento, o violento sopro de seus lábios”. Ele se entrega “Ninguém tira a minha vida”, diria o Senhor, “Eu vo-la dou.”

Nesse dia solene, sagrado para nós Cristãos, Nosso Senhor dá a Sua vida como o pelicano que, em falta da comida para seus filhotes, com o seu bico pontiagudo rasga o seu peito, tira um pedaço de carne de si e entrega a seus filhotes, para que não morram de fome. Assim fez Nosso Senhor ontem, na Última Ceia, a primeira Missa que Ele rezou. A primeira Missa: a vítima que se oferece, que se dá, que se entrega... Nos ritos antigos, o sacrifício consistia não na morte da vítima – a morte era consequência – mas no derramamento de sangue e, para isso, era necessário sacudir a vítima: o boi, o cabrito, ou oferendas menores, eram sacudidos porque isto agitava o sangue, propiciando uma melhor de aspersão deste sangue sobre o altar do sacrifício. Também no Ofertório da Missa, no momento em que o sacerdote oferece na patena a hóstia, ele agita este sacrifício com o sinal da cruz; da mesma forma que se agitava o animal nos sacrifícios antigos para que o sangue jorrasse a qualquer momento e a qualquer corte, também a vítima na Santa Missa é agitada, visto que, para nós, Ele é o perfeito cordeiro que se oferece.  

E ontem Ele se ofereceu, antecipando este momento de hoje. A Missa é a memória, a renovação, em nossos altares, do mesmo sacrifício do calvário; não outro, mas este mesmo sacrifício do calvário do qual, hoje, pelo mistério da Sagrada Liturgia, estamos próximos, ao lado do Senhor na Sua angústia, ao lado do Senhor em Suas dores, ao lado do Senhor no Seu abandono. Ninguém ficou ao seu lado, nem João. Nem João, o discípulo mais amado; nem ele ficou; todos correram apavorados, com medo, todos foram embora. Pedro negará Jesus diante de uma serviçal do templo e de outros; e os demais, cada um, procuram livrar-se da condenação que pesam sobre eles por serem discípulos ou apóstolos do Senhor. Para onde teria ido João? Não sabemos; tudo indica que para a casa das Santas Mulheres. E, com elas, com certeza estava Maria, Nossa Senhora, que já sabia o que a aguardava desde o dia da profecia de Simeão e, até aquele momento, Ela espera esta hora, Ela deseja que chegue esta hora: a hora da entrega, do sacrifício, a hora em que seu Filho, o Cordeiro Santo, irá remir os pecados da humanidade inteira como aquele bode expiatório, que os antigos usavam para, sobre ele, invocar os pecados de toda a comunidade dos judeus, e lançarem este bode à sorte no deserto para morrer, significando que levava todos os pecados. Por isto este bode expiatório. Por isto São João Batista pôde dizer: “Ecce Agnus Dei”. Aí está o Cordeiro de Deus que tira os pecados do mundo. 

E esta salvação se alarga hoje na morte daquele que, sendo Deus, não pode morrer, mas morreu verdadeiramente, padecendo as nossas dores, padecendo os nossos sofrimentos. Fisicamente igual a nós em tudo, morreu da nossa morte para que pudéssemos ter a Sua vida.

Então, o mundo volta-se ao nada: “Deus está morto!” “Deus está morto.” “Deus está morto...” Deus morre por amor de cada um de nós. “Pai, em tuas mãos, Eu entrego meu espírito”, disse Jesus. Veio do Pai, como dom dado de Deus para nós, e ao Pai Se entrega: “Em tuas mãos; tudo está consumado. Tudo terminei, agora tudo Te entrego.” A glorificação do Filho está no Pai, em fazer a Sua vontade. A glorificação do Pai está na vontade perfeita do Filho: o Filho que glorifica o Pai, o Pai que é glorificado neste mistério da cruz.

Deus que morre. Deus que desce aos infernos e, lá nos infernos, vai anunciar a salvação. Todos desejavam esta hora, desde os patriarcas, desde a época de Noé, desde a época de Abraão, de Isaac, de Jacó, desde a época dos profetas – todos, no limbo, esperavam este momento, o momento da redenção. À porta que estava fechada e ao selo que selava esta porta do paraíso, o sangue do Cordeiro abre; a porta é escancarada, a salvação concretiza-se, e o véu que separava é rasgado de cima a baixo na morte do Senhor. Aquele véu do templo que se rasga de cima a baixo, o véu que separava uma aliança de outra, agora é uma aliança eterna. Cristo que entra no templo não construído por mãos humanas, como fala São Paulo aos Hebreus, mas uma vez só; não com sacrifícios de touros ou sangue de cabritos, mas Ele se dá, o seu sangue é derramado de uma vez por todas. E, assim, a humanidade é salva, assim a redenção atinge todo o orbe da terra; não só o homem, mas toda a criação gemia, esperando este momento da redenção, este momento que se alarga e é derramado a todos os homens.

Entretanto, é necessário que assumamos esta salvação. Ele se dá, Ele salva, não a todos, mas a muitos: o sangue é dado por muitos, não por todos. E por que não por todos? Porque nem todos darão ouvidos, nem todos darão a sua adesão a esta salvação.

E, ao lado de Jesus, está Maria; e, ao lado de Maria, as santas mulheres; e, com as santas mulheres e com Maria, João, o discípulo amado. Nos últimos momentos, o testamento de Jesus: “Mulher, eis aí o teu filho. Filho, eis aí a tua mãe.” Maria recebe João e, em João, a Igreja inteira e os membros desta Igreja. João recebe Nossa Senhora e, em João, nós também A recebemos.

E podemos também contemplar a cena belíssima de Jesus descendo da cruz, já sem vida, desfigurado, massacrado nos braços da Mãe. Que dor para Nossa Senhora! Quantas lembranças, quantas recordações! Ela poderia muito bem dizer a Madalena: “Madalena, sustenta os pés, pois eles não se esqueceram dos aromas da urna de alabastro.” “João, sustenta a cabeça, que a tua repousou tão docemente em Jesus no último banquete.” Mas é a Mãe que recebe nos braços o Filho sem vida. 

Recebei-nos também, ó Mãe, em vossos braços como O tendes recebido; trôpegos são os nossos passos, Mãe, como nós temos vivido.

Sermão proferido na Sexta-feira da Paixão, em 6 de abril de 2012.

26 de abr. de 2012

Missa da Ceia do Senhor: “A Missa é o calvário todo. E a minha responsabilidade é única no mundo.”


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Pe. Marcelo Tenório

V. Ave Maria, Gratia plena, dominus tecum, benedicta tu in mulieribus, et benedictus frutus ventris tui Jesus.
R: Sancta Maria, mater Dei, ora pro nobis peccatoribus, nunc et in hora mortis nostrae. Amen.

V. Ora Pro nobis sancta Dei Genitrix,
R: Ut digni efficiamur promissionibus Christi.

A última Ceia do Senhor, a Missa In Cœna Domini, é um momento de júbilo e um momento de profundo pesar, de uma profunda tristeza. De júbilo, porque o Senhor instaura o Seu sacrifício, o mistério da Missa - é a Missa que Ele celebra. E, nesta Missa, Ele se dá: não mais os cordeiros antigos, não mais o sangue de touros e de cabritos, mas dEle mesmo que se entrega em resgate. É a primeira Missa que Nosso Senhor celebra como Sumo e eterno Sacerdote. Por isso, São Paulo vai dizer aos hebreus que Nosso Senhor não entrou no santuário construído com mãos humanas, mas de uma vez por todas Ele, como sacerdote eterno, como vítima, com Seu próprio sangue, entra no Santo dos Santos uma só vez e, assim, resgata por um só ato a humanidade inteira.

É júbilo porque a Missa nos é dada e por que a Santíssima Eucaristia é entregue à Igreja para que, renovando este gesto, possamos nós, da Igreja militante continuar na história, até a consumação dos séculos, este memorial da paixão, morte e ressurreição. Padre Pio respondeu alguém que o interrogou sobre o que é a Missa: 

“A Missa é o calvário todo. E a minha responsabilidade é única no mundo.”

 Também hoje, Nosso Senhor nos dá o mandamento do amor. E este mandamento do amor é o “amar a Deus sobre todas as coisas”. E é neste amar a Deus sobre todas as coisas que o Filho nos dá este exemplo, fazendo a vontade do Pai, e se entrega até a morte e morte de cruz, como cantávamos antes do evangelho: “Cristo se fez por nós obediente até a morte, e morte de Cruz, e por isso Deus o exaltou e deu o nome acima de todo o nome”.

Também, a instauração do sacerdócio católico. Hoje, nosso Senhor não só nos deixa a Eucaristia, o Seu sacrifício; não só nos dá o Seu mandamento de amor, mas também instaura o Seu sacerdócio. E, como dizia muito bem o nosso Arcebispo Dom Dimas na Missa dos Santos Óleos: “O sacerdote não é apenas um alter Christus, um outro Cristo; o sacerdote, na verdade, é Cristo, porque o sacerdote empresta a Nosso Senhor suas mãos, sua voz, todo o seu ser, todo o seu corpo, para que, através destas pessoas ungidas, Cristo continue a governar, a santificar e a ensinar.”

Era São João Maria Vianney que dizia: 

“Ide aos anjos e pedi a eles o perdão dos pecados, e eles vos dirão: não podemos. Ide aos anjos e pedi a todos eles que vos dê o pão do céu, e eles responderão: não podemos. Ide à Santíssima Virgem e pedi também o perdão dos pecados e o Pão do Céus, e a Santíssima Virgem responderá: não posso. Mas, ide ao mais simples dos sacerdotes, santo ou pecador; só ele poderá responder: teus pecados estão todos perdoados.”

 Eis o júbilo da festa de hoje, acompanhado pelos sinos e pelo Gloria. Mas, daqui a pouco, Nosso Senhor se despede e vive aquilo que O espera: o martírio, o calvário, o abandono. E, então a Igreja entra no sofrimento do Senhor e convida a todos nós a estarmos juntos com Ele no Getsêmani, a não abandoná-lo, a não deixá-lo sozinho. Todos foram embora, ninguém ficou. Até mesmo João, que volta depois; mas, naquele momento todos vão embora. João não ousa, em nenhum momento, dizer: “Que me preguem na cruz com o meu Senhor”. Apenas some, desaparece. Cristo está só, mas Sua Mãe Santíssima, com certeza, o acompanha de longe, talvez sem nem saber onde seu Filho estava preso, onde seu Filho se encontrava, mas Ela estava unida a Ele. Os demais fugiram apavorados diante do aparente fracasso de Nosso Senhor; este fracasso que vai ser aniquilado com a vitória da cruz no Sábado Santo, aos primeiros raios de sol do Domingo da Páscoa.

Este momento, para nós, é um momento sagrado, é um momento sublime, em que podemos contemplar Nosso Senhor em dois aspectos: na sua profunda alegria em ter consumado tudo e feito a vontade do Pai ao extremo, como João vai nos falar “Amou-nos até o fim” – In fine dilexit – mas também na angústia, na dor, na desolação que cairá sobre Ele.

E o que nós sabemos? 

Que o peso da cruz é o nosso peso, que somos nós que lhe pesamos na cruz. O Seu suor com sangue é por causa dos nossos pecados: somos nós que Lhe pesamos, somos nós que aumentamos as Suas angústias. Não foram os demônios que condenaram Jesus à morte, fomos nós: nós o condenamos, nós somos os responsáveis pela Sua morte e – o pior – nós somos responsáveis pela Sua paixão, que se arrasta até o fim dos séculos em cada pecador que se obstina no pecado, até em nós quando continuamos imersos em nossas falhas, em nossas podridões, ou até mesmo em pecados veniais que, diante de Deus e diante daquilo que Ele deseja para nós – a perfeição e o Céu – não deixa de ser atraso e empecilho contra o testemunho do primeiro amor, do primeiro Mandamento que é amar a Deus sobre todas as coisas, e do mandamento de amarmos ao próximo como, ou – às vezes, ou muitas vezes, ou quase sempre – mais que a nós mesmos.

 Que esta santa Missa in Cœna Domini abra para nós a porta das graças de Deus, a fim de que, neste Tríduo Santo, tenhamos a graça das graças, que é perseverar até o fim, até o último instante da nossa vida, como costumo dizer: “A graça não é começada em mim, a graça é terminada em mim.” Se começamos bem e não terminamos bem o que fizemos, acontece o que São Domingos Sávio dizia: “Se no final de minha vida não tiver me tornado santo, foi inútil ter passado por esta vida.”

Acompanhemos Jesus em cada instante, em cada momento, em Sua paixão que se abre nesta Última Ceia, ao lado de São João, o discípulo que Ele mais amava; ao lado de São Pedro que, apesar de seu temperamento, amava a Nosso Senhor; ao lado dos demais; mas, entre eles, estava Judas, o traidor, aquele que seria melhor nunca ter nascido.

Homilia proferida no dia 5 de abril de 2012, Missa da Ceia do Senhor (Lava-pés).





Domingo de Ramos: "Se queremos segui-Lo, preparemo-nos para a cruz, para o martírio, para as dores..."


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Pe. Marcelo Tenório

Entramos na Paixão de Nosso Senhor, o 2º Domingo da Paixão, o Domingo de Ramos. É neste Domingo que a Igreja canta, anuncia a Paixão de Nosso Deus. Um Deus que nos amou até o fim, até a morte, e morte de cruz.

Ao chegarmos diante da Igreja fechada, podemos contemplar o paraíso fechado pela culpa de um só homem, do velho Adão. Poderíamos contemplar o limbo dos patriarcas, o limbo dos santos onde todos aguardavam o momento da Salvação. É a porta que está fechada, a porta selada pelo pecado de um só homem. Pela obediência do novo Adão, de Cristo Deus, a porta é aberta e jamais será fechada. São as portas do Reino, do Paraíso que se abrem para todos aqueles que desejarem por ela entrar.

O 2º Domingo da Paixão, de Ramos, deve ser para nós esta porta aberta que nos convida a deixar a vida velha, o pecado de Adão, para podermos cravar a cruz de Cristo, que é a nossa ressurreição, sobre o crânio do antigo Adão. Como alguém já dizia: “Santo sepulcro, eis a cova; nela é deitado o homem velho: o homem velho seja abandonado na cova, e que saia o homem novo deixando aos vermes o pecado.”

Que possamos, neste dia santo, neste dia de reflexão, diante deste imenso amor de Deus por nós – que não precisava, mas quis nos amar -, responder com prontidão, como São Pedro após a negação: “Senhor tu sabes tudo de mim, tu sabes que eu Te amo.”

Na narrativa da Paixão, Cristo pergunta a Judas “Amigo, a que vieste?”  A mesma pergunta Nosso Senhor faz a cada um de nós: “Por que estais aqui? Por que vieste me ver?” Vamos dar nós o beijo traidor na face do Mestre, ou vamos segui-Lo a cada ponto, a cada instante, a cada dor, até a glória da ressurreição?

Se queremos segui-Lo, preparemo-nos para a cruz, para o martírio, para as dores. Não faltarão conosco os cirineus. As trevas, vez ou outra, se transformarão em luz; a dor não será tirada, mas aliviada. Entretanto, depois desta caminhada, lá longe, contemplaremos o mistério da Paixão, a cruz do Senhor. Do Rei avança o estandarte, fulge o mistério da cruz.

Homilia proferida em 1º de abril de 2012, Domingo de Ramos.

1º Domingo da Paixão: “Do Rei, avança o estandarte, fulge o mistério da cruz”



Padre Marcelo Tenório

V. Ave Maria, Gratia plena, dominus tecum, benedicta tu in mulieribus, et benedictus frutus ventris tui Jesus. 
R: Sancta Maria,  mater Dei, ora pro nobis peccatoribus, nunc et in hora mortis nostrae. Amen.

Enfim chegou o Domingo da Paixão do Senhor. Cristo que sobe para o patíbulo. É o estandarte da cruz que avança, como canta o hino antigo “Do Rei, avança o estandarte, fulge o mistério da cruz”. A partir de agora, a Igreja entra ao lado do seu Senhor para com Ele padecer e morrer. Se com Ele morremos, com Ele também haveremos de ressuscitar. 

O santo Evangelho mostra a tensão de Jesus com aqueles que tramam a sua morte. A tensão vai aumentando à medida em se aproxima o dia de seu suplício, da sua Paixão. Aqui Nosso Senhor fala algo muito duro para os fariseus; os fariseus, na verdade, queriam um motivo para condenar Jesus à morte. Nosso Senhor revela, de forma inequívoca, a sua divindade e a sua consubstancialidade com o Pai: “Antes que Abraão fosse, Eu Sou”. 

O Evangelho de João, quando fala “Eu Sou”, quer, na verdade, remontar ao Nome Santíssimo de Deus, quando nos é revelado no Antigo Testamento para Moisés: “Que direi eu ao faraó? Que nome tu tens?” “Diga-lhe que Eu Sou”. 

Javé, Yahweh, Eu Sou. É o nome sagrado de Deus que até hoje os judeus não pronunciam em sinal de respeito. Naquela época também não se pronunciava, mas a força deste nome de Deus - “Eu Sou” - está na pessoa, na obra de Nosso Senhor Jesus Cristo. E entrou no Santo dos Santos, não construído com mãos humanas (como fala São Paulo aos Hebreus), não levou sangue de touro nem de cabritos, não ficou repetindo ano a ano esta entrada como fazia o sumo sacerdote que, uma vez ao ano, entrava no Santo dos Santos sozinho, com sangue aspergia todo o lugar sagrado e pronunciava uma vez só o nome de Deus para a expiação de todos os pecados. Pois bem: o sumo sacerdote, Cristo Nosso Senhor, entra no santuário, não construído com mãos humanas; não leva sangue de nada, é Ele mesmo que se oferece, é o seu próprio sangue, não pronuncia outro a não ser o seu mesmo Nome, que é o da sua consubstancialidade com o Pai: “Eu Sou”. 

Os fariseus se apavoram, pegam pedras para apedrejá-lo, mas Ele sabiamente desaparece no templo. Por quê? Porque ainda não havia chegado a sua hora. É o drama da Paixão a que nós devemos assistir, mas não de forma passiva; assistir de forma ativa a cada momento, a cada instante. 

Hoje, Domingo da Paixão, o estandarte avança para ser cravado no Gólgota sobre o crânio de Adão; uma vez cravado no Gólgota sobre o crânio de Adão, Cristo restaura a aliança perdida. Por isso Ele pode dizer: “Quando Eu for elevado, atrairei todos a mim”. 

A cruz, então, será mais que sinal: um sacramental da salvação estendida à humanidade inteira. E, assim, nós podemos cantar na Sexta-Feira Santa: “Vitória, tu reinarás; ó cruz, tu nos salvarás”, ou “Ave, ó Cruz, nossa única esperança”. É o nosso estandarte. 

Entretanto, neste estandarte da cruz, também estamos nós: somos nós que lhe pesamos na cruz, são os nossos pecados, é o seu, é o meu pecado que faz a Sua cruz ser mais pesada; esta cruz que Ele abraçará – aliás, esta cruz que Ele abraçou desde o mistério da Sua encarnação, cuja festa comemoramos amanhã devido a ter caído hoje no Domingo da Paixão. E alguém dizia: “Ele não se encarnou e sofreu, mas sofreu e por isso se encarnou”. Sofreu no sentido de que Deus não abandonaria a Sua obra prima: não abandonaria o homem, a Sua criação perfeita na qual Ele colocou Sua alma, colocou algo que só Ele tem, mas envia o Seu Filho único, para que, através desse mistério grandioso que encerra o estandarte da cruz, pudesse religar novamente o homem ao Seu Criador. 

E, neste mistério da Paixão do Senhor, cabe-nos esta assistência ativa. Primeiramente rompendo de uma vez por todas com esse peso que somamos à cruz do redentor. Somos nós que Lhe pesamos na cruz. Rompamos com os nosso pecados. Determinemo-nos em termos uma vida santa. Não deixemos para amanhã se podemos fazer hoje, apressando a nossa conversão. E, apressando a nossa conversão, com a carne que nos é dada de seu peito - e daí São Tomás o vê como pelicano de Deus, aquela ave que, não tendo alimento para seus filhos, com o seu bico pontiagudo rasga o seu próprio peito para alimentar as suas crias - Deus nosso Senhor desce, rasga o peito, entrega-nos o Seu corpo e o Seu sangue para que através deles - corpo e sangue - nós na graça vivêssemos, vivêssemos na santidade. 

É uma ousadia nossa; é um pecado gravíssimo; chega a ser um sacrilégio, então, desonrarmos essa salvação - se é que se pode desonrá-la - mas fazer pouco caso desta salvação que custou ao Filho de Deus Sua carne, Seu sangue, Suas dores. Nossa resposta deve ser imediata; diante de tanto amor de um Deus que desce e que deseja que subamos a Ele, a nossa resposta deve ser imediata.  “Senhor tu sabes tudo, tu sabes que eu te amo”, assim como Pedro respondeu ao ser indagado por Jesus por duas vezes - em vez do uso do verbo agape, Pedro usa o verbo filioste. “Pedro tu me amas?” “Gosto”. “Pedro tu me amas?” “Gosto”. “Pedro, tu gostas de mim?” Então Pedro percebe e consegue rever aquilo que havia perdido: “Senhor tu sabes tudo, tu sabes que eu te amo”. Que o nosso amor por Deus nosso Pai e pelo seu Filho seja aquele amor agape, sacrifical, capaz de dar a própria vida. 

Na santa Missa Cristo se dá a nós, mas também nesta mesma Missa a que assistimos, devemos nos dar totalmente a Cristo: hóstia com hóstia, o sacrifício dEle - único, perfeito e eterno - e o nosso sacrifício no sentido de romper com tudo que nos afasta de Deus para sermos todos de Deus. Perder tudo para ter Tudo, no “tudo que é Deus”, como nos ensinava São Francisco de Assis.

Homilia proferida em 25 de março de 2012.

Publicação das Homilias da Quaresma e do Tempo Pascal


Salve Maria!

Publicaremos a partir de hoje uma série de homilias proferidas pelo Revmo. Pe. Marcelo Tenório nas Missas celebradas durante a Quaresma, e assim sucessivamente, até as ferias atuais.

Esperamos que todos aproveitem os excelentes sermões.

Boa meditação.

In Christe Fide,
Sacerdos